Artigo: Mobilidade sustentável: hora de somar competências

Iêda de Oliveira*

O rápido avanço da agenda da mobilidade elétrica no mundo, que só agora chega ao Brasil, e ainda assim timidamente, tem provocado preocupações no setor sucroalcooleiro.

Em sucessivos artigos e entrevistas, seus líderes apontam um suposto antagonismo entre eletricidade e etanol (ou biocombustíveis) na matriz energética do transporte brasileiro das próximas décadas.

São preocupações exageradas. Não existe esse antagonismo. Longe de representar uma ameaça, a indústria da mobilidade elétrica pode oferecer novas oportunidades à indústria de biocombustíveis no Brasil.

Por exemplo, com o desenvolvimento do etanol de segunda geração, capaz de abrir um imenso espaço à exportação de veículos elétricos híbridos brasileiros para toda a América Latina e outros mercados.

No próprio mercado doméstico, a demanda por transporte ambientalmente limpo será crescente. Esta demanda começará a ser atendida por veículos híbridos, e assim será por muitas décadas, dada a imensidão do país e as óbvias dificuldades de instalar, no curto prazo, uma rede de recarga elétrica que cubra todo o território nacional.

A indústria do veículo elétrico sabe que o Brasil não é a Noruega.

A hora, portanto, não é de dividir, e sim de somar competências.

No Brasil há espaço para todas as principais tecnologias de mobilidade sustentável.

A excelência nacional em biocombustíveis é um dos grandes feitos nacionais. Foi o resultado de quase 50 anos de esforços conjuntos entre governos, empresários e cientistas. Isso é inegável e merece todos os aplausos.

Mas a vocação brasileira à mobilidade elétrica também é indiscutível.

Segundo o Ministério de Minas e Energia (“Valor Econômico”, de 6/2/18), 81% da capacidade instalada de geração de eletricidade no Brasil já se originam de fontes não fósseis.  Em 2015, esse porcentual era de 75,5%.

O país já tem a quinta maior capacidade instalada do mundo em energia eólica e, em 2018, poderá ficar em 15º lugar em energia solar.

Assim, a ampla diversidade de fontes energéticas renováveis é o grande ativo nacional para o país se posicionar como líder das economias de baixo carbono que marcarão o século 21.

Num tempo histórico em que, não apenas o transporte, mas toda a cultura de mobilidade urbana é objeto de uma profunda revolução, é muito mais sensato identificar e estimular as sinergias entre o setor de biocombustíveis e as emergentes tecnologias de mobilidade elétrica – que estão apenas no começo.

Algumas empresas já apontaram o caminho a seguir. A Toyota, por exemplo, iniciou um estudo pioneiro sobre uso de etanol no Prius, o primeiro automóvel elétrico híbrido lançado no Brasil, com apoio da USP e da Universidade de Brasília. Outras a seguirão.

Elas mostram que, neste momento, é mais relevante reafirmar a posição estratégica do Brasil como produtor de um amplo leque de energias renováveis que se beneficiam mutuamente.

Quem pode deter a roda do progresso, quando ela se põe em movimento? Ninguém. Nem a indústria do petróleo e nem o setor de biocombustíveis. E nem a indústria de veículos elétricos.

No caso brasileiro, o desenvolvimento do mercado do veículo elétrico é um imperativo de atualização tecnológica e um compromisso inescapável das atuais gerações com a saúde pública e o combate ao aquecimento global.

É por isso que a ABVE defende, entre outras medidas, a redução de 25% para 7% do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) para veículos elétricos e híbridos, em estudos no Governo Federal.

Trata-se de medida de justiça tributária, que se limita a equalizar a alíquota dos elétricos e híbridos à dos atuais veículos flex. É o mínimo que a indústria de veículos elétricos poderia legitimamente esperar para orientar seus investimentos e apostar no desenvolvimento desse mercado no Brasil, depois do fim do programa Inovar Auto, em dezembro.

Tal redução de IPI não ameaça o setor sucroalcooleiro, com sugeriu recentemente a presidente da Única – União da Indústria da Cana-de-Açúcar (“Valor”, de 6/2/18).

O debate que verdadeiramente importa para o Brasil é outro. A saber: a confluência possível e desejável entre eletricidade e biocombustíveis.

Qualquer estratégia governamental ou empresarial que exclua uma tecnologia de transporte sustentável em benefício de outra será apenas outro mau exemplo de desperdício de talento e investimento.

É urgente aprofundar o diálogo entre especialistas de diferentes tecnologias de energia renovável, e entre os líderes empresariais dos setores que estão à frente da transição energética.

Esta confluência é a chave para consolidar o Brasil como líder mundial em matéria de transporte sustentável.

Iêda de Oliveira é diretora da Eletra, empresa brasileira fabricante de ônibus elétricos, híbridos e trólebus. É também vice-presidente para a Área de Veículos Pesados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).

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